Parlamentar publicou vídeo de intimidação nas redes sociais.
O vereador de Manaus Sargento Salazar (PL) publicou nesta segunda-feira (19) um vídeo nas redes sociais com ameaça direta de morte ao empresário Hugo Guimarães, proprietário do portal AM POST. A reação ocorreu após a divulgação de reportagens que questionam a atuação política do parlamentar e seus gastos com a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), com base em dados oficiais da Câmara Municipal de Manaus (CMM).
No vídeo, Salazar abandona qualquer tom institucional e parte para a intimidação explícita. “Eu aprendi foi a atirar”, diz o vereador, em fala que sugere uso de arma de fogo contra o empresário.
Ameaça direta e discurso violento
A fala publicada voluntariamente pelo próprio parlamentar nas redes sociais, não deixa margem para interpretações brandas. Ao mencionar armas e insinuar execução física, Salazar cruza a linha entre crítica política e ameaça criminal.
“Ah tu quer ir para a porrada comigo? Tenta a sorte. Primeiro que eu não sei brigar, eu aprendi foi atirar. Experimenta me agredir na rua para ver se eu não vou fazer tu usar duas antenas parabólicas uma em cada perna”, disse.
O termo “antena parabólica” é uma gíria comum no meio policial e hospitalar para se referir aos fixadores externos de metal (Gaiolas de Ilizarov), utilizados em fraturas expostas gravíssimas, geralmente causadas por projéteis de arma de fogo.
O ataque ocorre em resposta a matérias que detalham gastos do vereador com a CEAP em 2025, que somam R$ 316.557,01. Os números citados nas reportagens têm como fonte o Portal da Transparência da Câmara Municipal de Manaus, ou seja, dados públicos e verificáveis.
Além disso, Salazar também se mostrou incomodado por matéria que aponta que seu nome foi citado nos bastidores da política amazonense como uma possível opção para compor a chapa do senador Omar Aziz, pré-candidato ao Governo do Amazonas nas eleições de 2026, conforme informação da jornalista Rosiene Carvalho, que afirma ter apurado o cenário com diversas fontes ligadas ao grupo político do senador.
Gastos públicos e tentativa de descredibilização
No vídeo, Salazar classifica as reportagens como “fake news”, embora não apresente qualquer prova de erro nos dados divulgados. O conteúdo publicado pelo portal se baseia em registros oficiais, o que enfraquece a narrativa de desinformação adotada pelo vereador.
Caso de homicídio volta ao centro do debate
As ameaças também reacendem lembranças de um episódio grave do passado do parlamentar. Salazar foi acusado de matar Felipe Kevin de Oliveira Costa, em junho de 2019, no bairro Colônia Terra Nova, zona norte de Manaus. À época, ele atuava como policial e estava de folga.
Segundo denúncia formal do Ministério Público do Amazonas, Salazar perseguiu dois suspeitos de assalto em uma motocicleta e efetuou seis disparos contra um deles, que morreu no local. A investigação concluiu que a vítima não estava armada e que não houve troca de tiros, contrariando a versão de legítima defesa apresentada pelo então policial.
O caso chamou atenção pelo fato de Salazar não ter registrado boletim de ocorrência e só admitir autoria dos disparos mais de um ano depois, quando foi identificado por câmeras de segurança. Nenhuma arma foi encontrada com a vítima, que tampouco foi reconhecida como autor do assalto.
Absolvição contestada e questionamentos judiciais
Em setembro do ano passado, Salazar foi absolvido pelo juiz Fábio Lopes Alfaia. A decisão, no entanto, não encerrou as controvérsias. O deputado estadual Daniel Almeida (Avante) levantou suspeição sobre o magistrado e anunciou que levará o caso ao Conselho Nacional de Justiça e ao Ministério Público do Amazonas.
Ataque à imprensa e risco à democracia
A postura de Salazar contra o portal AM POST não se limita a uma reação emocional. Trata-se de um ataque direto ao exercício do jornalismo, cuja função é fiscalizar o poder, revelar dados públicos e informar a sociedade. Quando um parlamentar ameaça um veículo de comunicação por cumprir esse papel, o alvo deixa de ser individual e passa a ser institucional: a liberdade de imprensa.


