PREFEITURA DE MANAUS

Davi Almeida entre obras e a sombra da Erga Omnes

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Em live ao vivo, prefeito de Manaus anuncia 41 entregas até abril, defende servidora presa e consolida pré-candidatura ao governo — enquanto depoimento liga seu círculo íntimo a pagamentos em dinheiro vivo


Por Adão José Gomes · MTB-AM 000191 · Nafesta.com.br · 28 de fevereiro de 2026


Transmissão ao vivo nos Estúdios Manaós — YouTube Canal Blog do Hiel Levy. Condução: jornalista Hiel Levy Maia Vasconcelos, com Nilson Belém (Portal Cabôclo), Charles Fernandes (Portal Eixo Norte) e a participação de Adão José Gomes (Nafesta.com.br).

A semana havia sido turbulenta. Na sexta-feira anterior, 20 de fevereiro, a Operação Erga Omnes prendeu Anabela Cardoso Freitas — investigadora da Polícia Civil cedida à Prefeitura de Manaus e ex-chefe de gabinete do prefeito Davi Almeida. A operação apura suposto núcleo político ligado ao Comando Vermelho, com movimentações financeiras suspeitas superiores a R$ 70 milhões, em sete estados. Três dias depois, Davi lançou sua pré-candidatura ao governo do Amazonas em grande estilo. E na tarde desta quinta-feira, estava ao vivo, recebendo os aliados, respondendo à torcida organizada de seguidores — e devolvendo, com juros, cada acusação que lhe foi endereçada.

O cenário era descontraído. Mas o prefeito não estava só fazendo balanço de gestão. Em cada resposta, ele calibrava a narrativa para o que importa daqui para frente: a governadoria do Amazonas.
O gestor: números que resistem, contextos que incomodam
Davi Almeida tem um argumento poderoso nas mãos e sabe usá-lo: os dados de Manaus. Na saúde, a cobertura de atenção básica saltou de 47% para 92% sob sua gestão — números confirmados pela própria rede de unidades básicas da capital. No saneamento, saiu de 16% para 39% de cobertura, com meta de chegar a 45% até o final do ano. Na educação, Manaus avançou do 13º para o 5º lugar no IDEB nas séries finais, uma das melhores marcas da história do município. As vagas em creches triplicaram, passando de 5.000 para 14.000.

São números reais. Mas há um contexto que a live não alcançou: o Instituto Trata Brasil ainda lista Manaus entre os 20 municípios com pior desempenho em saneamento do país. A evolução é inegável. O ponto de chegada, menos.

Para os próximos meses, o prefeito prometeu 41 obras entregues até 4 de abril — um ritmo de quase duas por dia útil. “Se eu não conseguir entregar, o Renato vai entregar”, disse, referindo-se ao vice-prefeito Renato Júnior, que assumirá o Executivo municipal quando Davi renunciar para disputar o governo do estado. A confiança era visível. A lista detalhada das obras, com localização e valores, ainda não é pública.

Há também um dado revelador sobre o subfinanciamento da capital. Segundo o prefeito, de cada R$ 100 milhões pagos pelas empresas do Polo Industrial de Manaus, apenas R$ 2 milhões chegam ao município — 50% ficam na União, 48% no estado. “O município é o que mais entrega e o que menos arrecada”, disse. A afirmação é pauta da Federação Nacional dos Municípios e tem respaldo em análises de distribuição do ICMS e FPM no setor industrial de Manaus.
A operação: o que Davi disse — e o que ficou de fora
Quando perguntado diretamente sobre a Erga Omnes, o prefeito atacou em três frentes: questionou a competência territorial do delegado Marcelo Martins, do 24º Distrito Integrado de Polícia; afirmou que a operação já nasceu nula por ter sido conduzida fora do Tribunal de Justiça do Amazonas — foro ao qual ele, como detentor de mandato, estaria submetido; e enquadrou o inquérito como estratégia política de desgaste. “Ninguém fala mais de Comando Vermelho, ninguém fala mais dos 70 milhões. Só falam de passagem”, disse, em referência às passagens aéreas supostamente compradas por Anabela.

O argumento jurídico sobre o foro pode ter sustentação — advogados do prefeito já ingressaram com pedidos formais nesse sentido. O argumento político é mais arriscado. Porque dois dias antes desta live, o empresário Alcir Queiroga Teixeira Júnior, preso na operação, prestou depoimento que vai além das passagens. Segundo reportagens da Folha de S.Paulo e da Rede Amazônica, Alcir afirmou que Anabela pagava as viagens do prefeito, do vice-prefeito, da primeira-dama e de familiares em dinheiro vivo, majoritariamente com cédulas de R$ 50 e R$ 100. A viagem ao Caribe, em fevereiro de 2025, custou R$ 34 mil em espécie. E o pagamento, segundo o depoente, atendia a “pedido de David Almeida e demais pessoas da Prefeitura de Manaus”.

Esse depoimento não foi mencionado em nenhum momento da live.

O prefeito defendeu Anabela com a força do princípio constitucional: “Todo cidadão é inocente até que se prove o contrário. Ao acusador, o ônus da prova.” Disse que não abandona um soldado ferido no campo de batalha, que conversou com ela, que sabia da operação desde outubro. E acusou o delegado de ter feito 19 das 20 perguntas de um interrogatório com foco nele próprio, não no Comando Vermelho. “É óbvio que ele está me investigando, não o tráfico.”

Davi Almeida acionou simultaneamente dois escudos distintos: o jurídico — presunção de inocência, foro privilegiado, nulidade processual — e o político — motivação eleitoral, delegado a serviço de adversários, operação sem preso de tráfico. Os dois podem coexistir. Mas nenhum dos dois responde ao depoimento que coloca o próprio prefeito no centro do pedido de pagamentos em espécie.
O candidato: posicionamento, alianças e o caminho ao Palácio Rio Negro
Nas respostas sobre eleições, Davi foi preciso onde quis e ambíguo onde precisou. Recusou qualquer alinhamento declarado — “Eu vou pro centro, eu vou pra frente” — mas não escondeu os cálculos. O apoio ao senador Eduardo Braga (MDB) foi o único endosso explícito da entrevista, com destaque para a atuação do parlamentar na reforma tributária, que garantiu ao Amazonas vantagens competitivas para uma nova geração de indústrias na Zona Franca. “É dever do povo do Amazonas reconduzir o senador Eduardo Braga ao Senado Federal”, disse o prefeito.

Sobre o vice-governador Tadeu de Souza (União Brasil), que migrou de partido e sinaliza candidatura própria ao governo, Davi foi diplomático na forma e firme no conteúdo: “Minha decisão independe do apoio dele ou não, de ele assumir o governo ou não. Se ele quiser ser candidato, é direito dele.” A frase encerra a aliança sem declarar guerra.

A crítica mais dura ficou reservada ao governador Wilson Lima (União Brasil). A metáfora escolhida foi sofisticada: Davi comparou os oito anos de Lima ao “fim de semana perdido” de John Lennon — o período entre 1973 e 1975 em que o beatle viveu longe de Yoko Ono, consumido por drogas e baixa produção. “Nós andamos para trás”, resumiu. “Não dá para brincar de governador com 202 bilhões de orçamento sem construir um hospital, uma UPA, uma maternidade, uma delegacia.”

Questionado sobre o que faria com esse mesmo orçamento, Davi foi direto: faria o que fez em Manaus — só que em escala estadual. “Eu não tenho mais sonhos. Eu tenho soluções, entregas e resultados positivos.”
Interior e Amazônia: a agenda que falta ao estado
Uma das passagens mais substantivas da entrevista não foi sobre a crise nem sobre eleições. Foi sobre o Amazonas que ninguém governa de fato: o interior.

O prefeito detalhou que, durante os quatro meses em que exerceu o governo do estado interinamente, asfaltou mais de 390 quilômetros de ramais em municípios como Manacapuru, Rio Preto da Eva, Guajará e Altamira do Amazonas. Revelou que a Prefeitura de Manaus já planta pitaia vendida para supermercados Carrefour e exportada à China, e que planeja implantar os primeiros dez hectares de café no estado. E prometeu percorrer o interior de barco para formatar seu plano de governo. “Não posso formatar um plano com quem não conhece o Amazonas.”

No campo da segurança pública, apresentou uma proposta estruturada: triplicar a Guarda Municipal — de mil para três mil guardas armados e treinados — e criar uma Academia de Formação da Amazônia para atender também os municípios do interior. “Com isso, você libera a Polícia Militar. Você aumenta o efetivo na rua sem concurso novo.”

Na questão ambiental, o prefeito defendeu o zoneamento econômico-ecológico do estado — inexistente até hoje — como pré-condição para equilibrar preservação e exploração mineral. Citou projetos de potássio em Coari e gás em Silves. E fez uma afirmação que resume bem sua visão de Amazônia: “Nós somos os maiores preservadores. E somos punidos por preservar. É muito fácil falar de floresta na Avenida Paulista.”
O que a entrevista revela além das palavras
Davi Almeida saiu desta live com o que precisava: uma hora de câmera mostrando um gestor em movimento — escola entregue de manhã, feira inaugurada antes da transmissão, 300 toneladas de asfalto por dia. O discurso de gestão é seu ativo mais sólido e resiste bem aos fatos verificáveis.

Mas a entrevista também expôs as fraturas de uma candidatura que começa sob pressão judicial. O prefeito escolheu, simultaneamente, deslegitimar a operação e se abrigar na presunção de inocência. A combinação é politicamente inteligente. Mas há uma tensão que ela não resolve: se a operação é nula, por que precisar do escudo constitucional? Se o ônus é do acusador, por que atacar preventivamente a credibilidade do inquérito?

A resposta está na natureza da política eleitoral, que opera em tempo real e não espera o trânsito em julgado. Davi sabe que vai ser julgado nas urnas antes de qualquer tribunal. E que o eleitor que o elegeu com 100 mil votos de diferença em 2024 quer ver o prefeito nas ruas, entregando obras — não explicando extratos bancários.

A campanha ao governo do Amazonas começa, portanto, em dois trilhos que correm em paralelo: o da gestão, com números que o diferenciam de qualquer adversário declarado; e o da crise, com um inquérito que avança e depoimentos que complicam pessoas muito próximas ao seu círculo. O eleitorado amazonense, que Davi conhece melhor do que qualquer analista, decidirá qual dos dois trilhos pesa mais em outubro.

Adão José Gomes · Jornalista MTB-AM 000191 · www.nafesta.com.br · 25 anos · 80.000+ matérias · zero processos judiciais

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