Em sete meses, unidade acompanha 250 adolescentes e soma mais de 20 mil atendimentos
A música e a emoção dividiram espaço com o nervosismo no palco do show de talentos do Centro de Atenção Integral Juventude TEA, localizado no bairro São Geraldo, zona centro-sul de Manaus. Para os adolescentes que se apresentaram, cantar, tocar um instrumento ou estar diante do público foi também a oportunidade de mostrar, à sua maneira e no próprio tempo, conquistas construídas nas terapias e na convivência com outras pessoas.
Na plateia, familiares acompanharam cada apresentação com orgulho, e, em alguns momentos, lágrimas pelos avanços de seus filhos.
Inaugurado pelo governador Roberto Cidade em 9 de abril deste ano, o Juventude TEA já acompanha 250 adolescentes em terapia. Em sete meses de funcionamento, a unidade realizou mais de 20 mil atendimentos e consultas. O show de talentos é uma das formas de levar para fora das salas de atendimento habilidades trabalhadas no dia a dia, como comunicação, socialização, confiança e expressão.
Mãe de Ádria Luandra, de 12 anos, Adriana dos Santos conta que a filha, antes, tinha dificuldade para interagir e conversar com outras pessoas. Agora, diz, está fazendo amizades e participando mais das atividades. Ao vê-la tocar o instrumento que escolheu diante do público, Adriana se emocionou. “A Ádria antes não socializava com ninguém. Era muito difícil, ela ficava no canto dela. A gente saía e ela não gostava de conversar. Depois que ela começou as terapias, evoluiu bastante, tanto na socialização quanto para conversar e fazer amizades ”, relata.
“Para mim, como mãe, me sinto muito orgulhosa e emocionada de ver a minha filha tocando um instrumento que ela escolheu. Pra mim foi gratificante”, completa Adriana, que acompanha o tratamento da filha na unidade desde a inauguração.
Emoção
A apresentação também marcou uma conquista para Flávia Raquel, de 14 anos, que cantou para o público. A mãe, Amanda Costa da Silva, de 49 anos, conta que a filha era muito reservada e passava boa parte do tempo isolada no quarto. Com o acompanhamento, passou a interagir mais e a estar mais presente na escola. Ver a adolescente no palco foi uma surpresa para Amanda, que sabia dos ensaios, mas não imaginava o quanto a apresentação a emocionaria.
“Quando ela veio pra cá, ela mudou pra melhor. Passou a interagir, a se comunicar com o mundo. Era uma criança muito reservada, muito tímida, hoje não. Ela brilha, passou a viver mais”, conta. “Hoje o desempenho dela cantando pra mim foi uma surpresa muito grande. Eu deixava ela treinar em casa, dentro do quarto, era o momento dela. Ver o desempenho dela foi maravilhoso, gratificante”, detalha Amanda.
Para Flávia, cantar diante da plateia também foi um desafio. Ela conta que, no palco, teve medo de errar, mas decidiu seguir com a apresentação, mostrando o avanço na autoconfiança resultado do trabalho no Juventude TEA.
“Eu percebi que mudei, vejo que realmente comecei a falar com as pessoas, não ter medo de me expressar, de ser eu mesma. Foi algo gratificante. No palco eu ficava: ‘Meu Deus, se eu errar isso aqui vou passar o maior mico’. Eu errei, mas foi algo incrível”, diz.
A evolução de cada adolescente aparece em gestos e experiências diferentes. Para Ione da Silva, de 53 anos, mãe de Asafe, de 14 anos, a apresentação do filho – que interpretou Michael Jackson – foi mais um passo em um caminho que ela já acompanha desde o início do atendimento.
“Hoje para estarmos aqui, desde maio até outubro, acho que o Asafe já subiu uns três, quatro degraus. Hoje ele já diz ‘bom dia’, já abraça, já pode ir comigo no shopping, já pode ir num mercadinho, comprar um pão sozinho. É uma esperança para as mães atípicas”, afirma Ione.
Juventude TEA
O Juventude TEA é uma unidade estadual voltada a adolescentes de 12 a 18 anos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O atendimento é realizado por equipe multiprofissional e busca dar continuidade ao acompanhamento especializado nessa etapa da vida, com atividades voltadas ao desenvolvimento, à autonomia e à inclusão social. A estrutura inclui espaços para terapias e uma casa funcional para Atividades de Vida Diária (AVD), treino onde os adolescentes podem praticar tarefas domésticas e preparo de alimentos. As famílias também recebem acolhimento e orientação.
Segundo o diretor-executivo da unidade, Juliano Botero, o trabalho considera o adolescente, os profissionais e os familiares como parte do processo. “Quando a gente trata do paciente do espectro autista, nós costumamos dividir ele em três pilares. Primeiro o paciente, segundo os nossos profissionais, uma equipe multiprofissional que atende esses pacientes, e o terceiro pilar, talvez o mais importante, são os pais atípicos, as mães atípicas e também as avós que têm esse cuidado. ”
Para ele, o desenvolvimento precisa fazer sentido também na rotina fora da unidade. “A terapia não se resume somente em clínica, ela tem que ser estendida ao contexto do seu domicílio, o convívio diário”, destacou.
Fotos: Divulgação/Secom-AM


